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Morro do Chapéu

Carta-desabafo de um dono de Rádio

Sou vítima de perseguição! Herança maldita, essa minha, com destino, desde tenra idade, para a herança dos traços coronelistas.

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Carta-desabafo de um dono de Rádio
Arte Visual: WMDesign

“É provável! Mas compromisso é compromisso! Os países inferiores têm que trabalhar para os países superiores como os pobres trabalham para os ricos. Você acredita que New York teria aquelas babéis vivas de arranha-céus e as vinte mil pernas mais bonitas da terra se não se trabalhasse para Wall Street de Ribeirão Preto a Cingapura, de Manaus a Libéria? Eu sei que sou um simples feitor do capital estrangeiro. Um lacaio, se quiserem! Mas não me queixo. É por isso que possuo uma lancha, uma ilha e você …Heloísa”[1]

Sou vítima de perseguição! Herança maldita, essa minha, com destino, desde tenra idade, para a herança dos traços coronelistas. Sou vítima, sim, senhor! Tive muitos brinquedos na infância, nunca passei fome, nem nasci aqui, nessa cidade de gente que eu nem conheço. Em frente ao espelho, no divã, em nenhum lugar me encontro. Não, eu não me pareço com ninguém. Qual é minha identidade? Como posso, eu, nascido para dominar, sentir-me impotente, incompetente e apelando para discursos vazios?
Eu sou doutor, sem doutorado. Mas, do que importa o título? Eu nasci pra ser doutor, destino cruel, de família. Sempre tive cargos políticos. Eu, meu pai, meu irmão – cidadãos de bem, também, ocupantes vitalício de cargos políticos. Terrível predestinação à violação de regras e produção sistemática de mentiras. Sou eu, obstinado por poder, insaciável criatura. Ando cheio dos meus vazios.
O que eu tenho? Uma rádio para mentir e destilar meu veneno. Odeio gente, ando com seguranças. Que os deuses me livrem de um pobre perto de mim – exceto em período de campanha. Falar para o povo, transmitir meu desafeto em frequências moduladas é muito bom. Não gosto de gente. O que é gente?
Não, não sou da velha política, não sou do “tomaladacá”! Nem gosto de política. Na faculdade, de Aristóteles a Ruy Mauro Marini – quem são eles? – não suportava o debate sobre política. Hermenêutica é um saco – paguei, logo, passei! Não redigi textos: monografias me entendiam. Detesto a esquerda. A esquerda é uma ilusão, redentora da mamadeira de piroca, de cartilhas gays, do Foro de São Paulo – eu sei, é tudo mentira! Mas eu não me importo com a verdade. Não sou político e quero destruir a esquerda. A direita deve ser sacralizada – mesmo que a historiografia moderna insista em dizer que ela assassinou 500 mil crianças afegãs, só na década de 1990. Meu problema é a esquerda. Como não gosto do povo, não gosto de quem se preocupa com o povo. O que os cubanos tem de tão especial? Só porque tem incríveis sistemas de saúde e educação – que triste, ter que reconhecer isso –, significa que tenho que me render a eles? Malditos cubanos! Por sua culpa, as internações de emergência na rede pública de alguns estados brasileiros foram reduzidas em até 70%. Esquerda de merda, com saúde preventiva e educação de qualidade. Esquerda de merda: falando de alimentar o povo, como se essa gente tivesse fome!
Não estou acostumado a debater. Não sei como curtem réplica e tréplica. A verdade é minha. É confortável debater do meu estúdio, com questões que meus assessores lacaios selecionam. Que maravilha! Pobres falando de longe. Eu os lanço no ar, para que saibam que, se tem voz, é por que a gente permite. Ainda, meus adversários não me confrontam. Eu sou a mentira verdadeira!
Não conheço nenhuma escola pública. Tenho horror a tudo que é público. Quero enxugar o estado, para que seja possível aumentar os salários meu e de meu pai. O estado tem que ser mínimo – com a gente dentro, é claro. Mérito é isso: o sujeito nasce rico e se mantém rico. Que culpa tenho eu, de ter um destino maldito da herança? Minhas minhas posses, somente minhas, são resultado de coisas de tipo lei de partilha e capitanias hereditárias. Sim, não sou nada – além de um filho da burguesia, banhado de privilégios.
Por fim, resolvi ser candidato. Sou “doutor” e tenho uma rádio. Isso não é incomum. Tenho muitos amigos, jovens como eu, que herdaram o trono ou fizeram o papel do fantoche. Mas o que importa? Minha moral é frouxa – como toda moral. Eu encomendei pesquisas e já divulguei em minha rádio que sou vencedor. Suponho que o povo seja burro – e deve ser . Alguns estão comigo, em trocas de favores pequenos.
Não tenho nada, além dessa triste vida de gente rica. Mas, por favor, não me tire o direito de ser medíocre…eu sou somente isso!

[1] Retirado de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade.

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Morro do Chapéu

Prevenção Covid-19: Prefeitura e CDL convocam comerciantes morrenses para reunião extraordinária

A convocação visa a construção de um decreto participativo, tendo em vista a escuta e a participação de todos os comerciantes presentes na reunião.

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Foto: WMNews

Na noite de domingo, 03 de janeiro de 2021, a Prefeitura em parceria com a CDL emitido a convocação direcionada a todos os comerciantes de Morro do Chapéu.

Leia a convocação

A Prefeitura de Morro do Chapéu em parceria com a CDL convoca todos os comerciantes para reunião extraordinária.

Data: 05/01/2021 (Terça-feira)
Horário: 14:00
Local: Auditório Secretaria de Educação
Assunto: Decreto sobre medidas de prevenção ao Coronavírus

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A publicação do facebook, com o comunicado, feita pela assessoria de comunicação da Prefeitura de Morro do Chapéu ressalta que a reunião extraordinária “visa a construção de um decreto participativo, tendo em vista a escuta e a participação de todos os comerciantes presentes na reunião.”

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