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Política

Breve ensaio contra a elite do atraso

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Breve ensaio contra a elite do atraso

Na minha infância, por várias ocasiões, lembro que os mais velhos da família diziam: “menino, aprenda a se comportar no meio de gente!”. A frase, dita com boas intenções – reconheço! –, escondia a perversa condição daquele povo que não se enxergava povo, que não se percebia gente, que lhe foi propositalmente arrancada a condição de ser humano, para quem povo, gente e humano, sequer, fossem dicionarizados. “Menino”, dito assim sem se referir ao meu nome, indica um substantivo que define um conjunto de crianças, todas iguais, todas não-gente, sem voz, sem identidades. Gente, parecia um grupo distante, representado por gente que “falava polido”, o que, geralmente, significava falar o que ninguém entendia.

Os tempos são outros, dizem. Talvez. As palavras povo, gente, humano não são as mesmas da minha infância. A gente se vê gente, com muito esforço. A gente se vê humano! Vamos aceitar isso, e seguir adiante, mesmo que ,em tempos neofascistas, a “palavra pessoa não soa bem” [1]. O fato concreto é que as estruturas que apagam a força das palavras “gente”, “povo” e “humano”, assim como faziam na minha infância, estão vivas e renovadas. Elas se mostram nas escolas ruins, na negação de atenção básica de saúde, na reforma previdenciária, na reforma trabalhista, na mutilação de sonhos da criança que morre com um tiro na barriga e nas tragédias do “Brasil real” – aquele Brasil desconhecido das nossas elites dominantes, elites que Jessé Souza, acertadamente, adjetiva como “elite do atraso”[2].

Essa elite do atraso é contra o povo e não gosta de governo que governa para/com o povo. Ela quer seus filhos nas universidades, mas detesta a ideia de que os filhos de trabalhadores e trabalhadoras também o façam. Ela, geralmente, tem filhos médicos, engenheiros e advogados – doutores, mesmo sem doutorado! – que servem para gerir os negócios de família ou para cobrar por serviços médicos caros para uma camada de gente pobre e miserável. E, na maioria das cidades, essa elite do atraso forma dinastias políticas que se perpetuam no poder – ás vezes, por décadas –, mentindo, empregando familiares, atacando adversários políticos e nos fazendo acreditar que “política é assim mesmo”, que não “temos saída”.

Ruas, praças, escolas e monumentos públicos são batizados com os nomes da elite do atraso. As câmaras de vereadores e as prefeituras vivem abarrotadas de avós, pais e filhos da elite do atraso. Ela não poupa esforços para se manter no poder, e quando um “novo” grupo se elege, geralmente, é pertencente à outra elite do atraso.

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Essa mesma elite do atraso cria currículos e improvisa péssimas escolas para formar os filhos do povo; afinal, ela cria o ideal de escola, de currículo, do que é ,ou não, progresso, do que é sucesso e, principalmente, do que é conhecimento. Lembra-nos, Jessé: “[…]quem controla a produção das ideias dominantes controla o mundo. Por conta disso também, as ideias dominantes são sempre produto das elites dominantes. É necessário, para quem domina e quer continuar dominando, se apropriar da produção de ideias para interpretar e justificar tudo o que acontece no mundo de acordo com seus interesses” (p.19).

Para dominar, essa elite cria leis e aprova seus filhos em concursos para juízes. Famílias inteiras ocupam cargos no judiciário [3]. Ela diz quem é o ladrão. Encarcera seus inimigos e protege seus filhos e amigos que, não raro, atacam pessoas indefesas. Essa elite possui rádios, jornais e televisão para contar suas “verdades”. Em cidades do interior, por vezes, ela tem todas as rádios sob seu controle. Ela ataca e não aceita o direito de defesa. Em resumo, essa elite parece destinada a dominar para sempre, especialmente por que se sustenta em narrativas de verdades e mentiras que ela mesmo construiu, além de fazer criar a narrativa de que a diferença entre ricos e pobres se baseia na meritocracia ou em “bençãos de Deus”.
E nós, povo, o que podemos fazer? Embora não tenha resposta para um questão tão desafiadora, penso ser importante perceber que a pobreza, a fome e a miséria não são castigos por nossos pecados. Os humanos erram. Mas não somos castigados por um deus malvado. Merecemos um mundo melhor, aqui, agora. Para isso, é preciso pensar coletivamente e perceber que a atuação política é uma necessidade. Somos parte uma sociedade governada por meia dúzia de famílias que tem todo interesse em manter direitos garantias básicas negados à maioria esmagadora da população: é a elite rapina,entreguista, cruel, vingativa, saudosista da escravidão, carregada de falso moralismo, que deseja abocanhar todas as riquezas e manter nossa gente na miséria.

Mas a elite do atraso nos faz acreditar que somos pobres por que somos incompetentes ou não nos esforçamos o suficiente, alegando que “todos tem o mesmo direito” e que as oportunidades são iguais. Mentira! Aliás, nascer pobre, na periferia do capitalismo, é quase certeza de continuar pobre até a morte. Ao contrário, os filhos dos ricos tendem a perpetuar as riquezas herdadas. Por sinal, a marca das desigualdades sociais não são uma exclusividade nossa e parece ser resultado do modelo predatório e que, na ambição do acúmulo de riquezas[4]. Como nos lembra Camille Peugny, na França atual, “sete de cada dez filhos de executivos exercem a função de comando depois do término dos seus estudos. Inversamente, sete de cada dez filhos de operários continuam enquadrados em função de execução” (p.19).

Creio ser necessário, ainda, identificar os homens e mulheres que defendem a continuação da elite do atraso nos poderes legislativo e executivo: não podemos aceitar que continuem ocupando tais espaços, sem nenhuma contribuição para a construção de uma cidade, de um estado e de um país melhores. E para combatê-los, só possuímos a força dos nossos irmãos e irmãs, organizando a luta de trabalhadores e trabalhadoras, de modo eleger projetos que nos representem e que garantam nossa participação nas decisões do mandato nos próximos quatro anos. Se não existiram mandatos assim, vamos propor um novo, eleger um novo!

E menino ? O menino tem nome, escreve textos e luta cotidianamente contra a elite do atraso e por um mundo melhor! O menino é substantivo político!


[1] Trecho da canção “Conheço meu lugar”, do genial Belchior.
[2] SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
[3] FELIZARDO, N. Uma terra de dinastias. Disponível em : < https://theintercept.com/2019/07/01/nepotismo-tribunal-justica-amazonas/ >. Aceso em 07/07/2020.
[4] Sobre isso, recomendo a leitura do texto O destino vem do berço? Desigualdades e reprodução social, de Camille Peugny. PEUGNY, C. O destino vem do berço? Desigualdades e reprodução social . Campinas: Papirus, 2014.

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Lula Gabriel
Lula Gabriel
10 meses atrás

“E a elite rapina,entreguista, cruel, vingativa, saudosista da escravidão, carregada de falso moralismo, que deseja abocanhar todas as riquezas e manter nossa gente na miséria.”
E o menino é sujeito político, sujeito histórico, sujeito cantador, sujeito escrevinhador e sujeito meu amigo👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

Política

‘A luta de professores por direitos’ foi o tema da AgendaMIC dessa semana

ENTENDA A ATUAL SITUAÇÃO DOS PROFESSORES QUE TIVERAM SEUS DIREITOS TIRADOS PELA PREFEITURA DE MORRO DO CHAPÉU.

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A Luta dos Professores na Defesa dos Direitos foi o tema central da última edição da AgendaMIC, terça-feira, 23/03. O bate-papo virtual aconteceu a noite e foi transmitido na Live do Léo. Veja como foi a conversa assistindo o vídeo abaixo.

A 3ª edição da AgendaMIC na Live do Léo, apresentada por Welton Matos – autor da Agenda, convidou a Professora Lilian Maria, Coordenadora da APLBAssociação dos Professores Licenciados da Bahia que manifestou a sua insatisfação com a forma como os direitos da classe de professores estão sendo tirados mesmo que tenham sido conquistados com muita luta pela instituição que tem mais de 85 anos.

Lilian relembrou alguns momentos na trajetória de luta dos professores de Morro do Chapéu. Veja a seguir.

ENTENDA A ATUAL SITUAÇÃO DOS PROFESSORES QUE TIVERAM SEUS DIREITOS TIRADOS PELA PREFEITURA DE MORRO DO CHAPÉU.

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—–O que está acontecendo com a classe de professores do Morro do Chapéu é o seguinte:

  • Em Janeiro circulavam boatos que a gestora iria mexer nos salários, pois segundo ela, ganhamos rios de dinheiro.
  • A APLB então solicitou reunião onde a gestora [Juliana Araújo, PL] garantiu que eram apenas boatos.
  • Não foi. [E o] pagamento de janeiro [veio] com desconto. Ao ser questionada mais uma vez, alegou que estávamos recebendo vantagem em cima de vantagem, gerando um efeito cascata.
  • Mais uma reunião foi feita: comissão do FUNDEB, advogados das duas partes, professor de matemática para mostrar os cálculos, e ela [Juliana] simplesmente irredutível continua com os descontos, não considerando a progressão da classe (calculando o salário atual pelo salário base de 11 anos atrás. Ao invés de calcular sobre nossas gratificações);
  • O plano de carreira do magistério está em vigor desde 2010, após incansáveis dias de lutas para aprovação… rasgado e jogado no lixo por uma gestora que parece desconhece-lo.
  • Em fevereiro e março [a] pressão sobre os funcionários em cargos comissionados, ordenando que não participassem dos movimentos ou compartilhassem nada referente a isso; inclusive saíssem do grupo da APLB;
  • Muitos funcionários públicos estão intimidados com a postura da atual gestão [Juliana Araújo, prefeita de Morro do Chapéu-BA]: perseguidora, autoritária, arrogante e desconhecedora dos direitos que regem a nossa lei”.

 – TEXTO DE AUTORIA DE ALGUNS PROFESSORES DO MUNICIPIO DE MORRO DO CHAPÉU publicado no facebook. —-

Na AgendaMIC:

16/03/2021: Inclusão Cultural em Ponta D’ Água“.

09/03/2021: Exclusão Cultural Resistência Quilombola“.

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