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Política

Eu, robô?

Usar robôs para disparar mensagens não é difícil. Ao leitor curioso, basta fazer uma pesquisa rápida na internet e concluirá que existe uma dezena de plataformas que oferecem o serviço – empresas usam este serviço para envio em massa de propagandas.

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Arte Visual: WMDesign

Recentemente, uma universidade paulista usou inteligência artificial para a correção das atividades de estudantes de graduação dos seus cursos [1]. Em termos simples, a universidade usou robôs, em lugar de professores e professoras, para corrigir provas e atribuir notas a seus estudantes. O que, na década de 1960, ocupava cabeças da ficção futurista – como em Eu, Robô e Cérebro Eletrônico [2] –, começa a se transformar em tecnologias presentes em muitos aspectos das nossas vidas. Gil cantava: só eu posso pensar se Deus existe/ […] só eu posso chorar, quando estou triste/ […] eu penso e posso – indicando que consciência, inteligência e ação racionalizada são indissociáveis. Ou seja, máquinas não podem ser inteligentes por que não teriam consciência. Em trabalho recente, o historiador Yuval Harari [3] apresenta excelentes argumentos que apontam para uma quebra do vínculo, aparentemente necessário, entre inteligência e consciência. Ou seja, as máquinas robotizadas, mesmo sem consciência ( característica humana), podem ser inteligentes.

O episódio do uso da inteligência artificial para substituir o trabalho de professores mostra que é possível desenvolver inteligência robotizada: o elemento da inteligência, portanto, prescinde o homo sapiens e a consciência. Diante disso, algumas questões se apresentam de imediato, a saber: quais as consequências futuras desse fenômeno? Os robôs representam uma ameaça ou são aliados dos humanos? Matrix [4] é uma realidade ou uma simulação?

Ainda que a resposta para estas questões não possam ser amplamente debatidas em um ensaio dessa natureza, adotaremos o caso do uso de robôs nas eleições de 2018, para ilustrar uma das consequências negativas do uso da inteligência artificial. O uso de robôs para influenciar resultados eleitorais foi amplamente relatado pela mídia e é objeto de projeto de lei em tramitação no Senado Federal[5].

Na campanha presidencial que elegeu Jair Messias Bolsonaro, o uso de robôs (bots) para divulgar mensagens, de apoio ou depreciativas, foi largamente utilizado – como mostra ampla divulgação dos diversos veículos de imprensa . A título de exemplo, o nome do atual presidente, ainda em campanha, aparece em 276.767 tuítes gerados por robôs, entre 19 e 26 de setembro [6]. Mentiras foram geradas pelo candidato – por exemplo, o “kit gay” – e divulgadas por robôs. O atual presidente e seus aliados, aliás, não pararam de usar robôs para produzir mentiras e apresentar um falso apoio popular. Em estudo recente, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo apontaram que 55% das publicações pró-Bolsonaro são feitas por robôs. Recentemente, o próprio presidente fez uso de imagens produzidas por softwares como se fossem de “pessoas reais”.

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A mim, o uso de robôs em campanhas eleitorais é fonte de grande preocupação. Estamos diante de um novo pleito eleitoral e não sabemos qual será a influência das divulgações de mensagens utilizando robôs. Usar robôs para disparar mensagens não é difícil. Ao leitor curioso, basta fazer uma pesquisa rápida na internet e concluirá que existe uma dezena de plataformas que oferecem o serviço – empresas usam este serviço para envio em massa de propagandas. Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proíba o uso de robôs em campanhas eleitorais, essa prática foi usada e, provavelmente, será repetida por pessoas ou projetos políticos para encaminhar suas ideias.

Por três ocasiões, recebi mensagens em que se propunha uma enquete para futuros candidatos à prefeitura de Morro do Chapéu. Vale destacar que a lei 9504/97 [7], em seu artigo 33, proíbe a realização de enquetes em períodos de campanha eleitoral. Não estamos em campanha eleitoral, ainda. Mas já se percebe o movimento de uso da internet e o compartilhamento massivo de informações que tratam das agendas políticas locais. Não raro, excluem-se nomes que estão em destaque como pré-candidatos à prefeitura de Morro do Chapéu. Por vezes, nomes desconhecidos são incluídos. A suposta “pesquisa” desparece do ar e restam os posts em redes sociais, como se isso indicasse tendências de votos nas eleições 2020.

A nosso ver, ainda que o movimento seja incipiente, é preciso ficar atento: pesquisa eleitoral pressupõe padrões legais definidos pelo TSE, sem os quais não tem validade e constitui crime. Ao receber mensagem para participação em enquetes ou “pesquisas”, devemos verificar se o seu proponente está autorizado a fazê-las. Enquetes são sumariamente proibidas e pesquisas só podem acontecer com anuência do TSE. Resultados mentirosos nas mãos de robôs destroem reputações e podem influenciar você, caro eleitor morrense, a concluir sobre seu voto em um projeto que não representa as demandas reais da comunidade. Somos homens e mulheres, inteligentes e conscientes, capazes de superar a produção de distorções e mentiras, que se tornam tão frequentes em palanques eleitorais. Para tanto, é importante buscar informação qualificada, conferindo as fontes dos dados que recebemos. Em uma eleição que será marcada pelas redes sociais ( Whatsapp, Instagram, Facebook, etc), devemos checar cada informação que passamos adiante. O registro de candidaturas, informações relativas a gastos de campanha e sobre o perfil dos candidatos, estarão disponíveis no site do TSE. Informe-se, pense e não robotize seu voto! A Matrix está em curso; mas não podemos aceitar sua violência e seu cinismo, nem entrar na sua dança. Não somos robôs e não vamos aceitar campanhas feitas por robôs!

[1] https://cartacampinas.com.br/202 O nome dele apareceu em 276.767 tuítes gerados artificialmente na rede desde 19 de setembro.0/04/faculdade-particular-usa-robo-para-corrigir-provas-e-dar-nota-aos-alunos/.

[2] Eu, Robô é um clássico do escritor russo Isaac Asimov; Cérebro Eletrônico é uma canção de um homônimo de Gilberto Gil.

[3] HARARI, Y. N. Homo Deus: uma breve história do amanhã. 1a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[4] Matrix(The Matrix) é um filme de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido por Lilly e Lana Wachowski.

[5] https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/02/17/uso-de-robos-para-influenciar-eleicoes-esta-na-pauta-da-ccj.

[6] https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/bolsonaro-e-o-presidenciavel-mais-citado-por-robos-no-twitter-mostra-nova-ferramenta-do-congresso-em-foco/

[7] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9504.htm.

Mestre em ensino de física - UEFS, professor da rede pública de ensino da Bahia e músico!

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Chapada Diamantina

Prefeito de Piatã registra queixa em delegacia por ser ameaçado de morte por traficantes locais.

Ameaçando também sua família, o criminoso diz que o prefeito tem responsabilidade sobre ações da PM contra o tráfico local.

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O prefeito do município de Piatã, na Chapada Diamantina, Edwilson Oliveira Marques, o popular ‘Ed Peças’ (PDT), registrou na manhã desta quarta-feira (11) um queixa na Delegacia de Polícia por ter recebido ameaças de morte. De acordo com o gestor, ele e sua família estão em alerta por receberem as ameaças feitas por traficantes conhecidos na região. “Os criminosos atribuem ao prefeito, sem fundamento algum, responsabilidade por ações da Polícia Militar de combate ao tráfico de drogas”, aponta a assessoria do político.

No boletim de ocorrência enviado ao Jornal da Chapada, ‘Ed Peças’ registra que um homem, sem identificação, chegou na cidade e disse a terceiros que estaria “no dia da votação para matar Edwilson, pois o sobrinho de um criminoso morto no dia 17 de julho por intervenção da Polícia Militar, em Seabra. O traficante ainda gravou um vídeo e publicou em redes sociais, afirmando ter dois mandatos de prisão e uma vasta ficha criminal, alegando que “Ed derramou meu sangue tentando me matar”.

Ainda conforme dados apurados pela reportagem, o gestor solicitou proteção policial para ele e seus familiares. “Em 2016, também no período eleitoral, aconteceram fatos idênticos, mas, agora, as ameaças ocorrem de forma premeditada e organizada, através de mensagem de WhatsApp, que registram promessas de vingança, tendo como alvo inclusive, minha família”, alega prefeito, nitidamente abalado pelas ameaças.

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